Por não ter escolhido o que quer que seja na vida
Talvez ainda não haja o que me proteja durante o sono
Mantenho uma certa distância da porta e continuo por perto
Sendo a brisa da área o artifício de que preciso
Pra saber que não caí novamente no vazio
Talvez seja tarde, a sala já se encontra fria
e eu ainda não encontrei o ponto onde possa dormir
sem que haja mais sono no dia seguinte ou que ainda seja cedo
e acorde de madrugada e me ocorra a ausência das coisas
Naquele poço de silêncio fundo
Sobra esquecimento e conforto
Some a inquietude dos reflexos
Talvez a gente só precise dormir
Há uma ponta de mergulho em cada vôo, uma ponta de inércia em cada dançaHá uma ponta de quebra em cada laço, uma ponta de não sei o que façoem cada certeza; uma ponta de lança apontada e presa no coração de minha dúvida que já não dá conta de tanto receio de acabar
Entre tintas imiscíveis e superfícies ásperas
Você descobriu seu propósito na falta de um
Corremos por dias que de longe se confundem entre si
Imaginando que a falta de tecnologia nos faria livres
Entre linhas de raciocínio cínicas e planos esquecidos
Os seus sonhos se encontravam numa gaveta cujo código esqueci
E que agora pertence a partição de que não tomamos parte
Na burocratização da papelada que parecia até arte
Quando arremessada do topo de um arranha-céu
Entre justificativas e meios de fins
Fingi não me afetar porque não me importava
Ou não me importar por uma questão de afeto
Imaginando que pudesse viver de sensação
Acabei atropelado pelos próprios excessos
Entre nuvens amareladas e tintas nas mãos
Eu era retratado nessa pintura quase como um traço
Procurava por algo insignificante,
mas talvez me sentisse vasto
Como a linha do horizonte desse chão.
Acordei com um escuro sem hora pra acabar
E no escuro tateei em vão as chaves
E no escuro desci as escadas e encontrei o carro
E no escuro andei em voltas pela cidade
E no escuro as luzes fundiam em meus olhos os muros
E tudo parecia nada e o cheiro parecia novidade
E no escuro seu emaranhado de curvas parecia claro
E a luz parecia ter a dose de escuro perfeita
Quando vinha translúcida debaixo do escuro da coberta.
Do outro lado da ponte era tudo como aqui estava
era como se no fim o sentido fosse o começo
E a partir de um certo ponto, era quase como uma estrada
E me encontrava partindo a cada vez que chegava
No final das contas o sentido não era a ida ou o regresso
Era só percorrer a viagem em si
Era tarde demais pra me dar conta?
Sai desse coma insone, deita a cabeça no peito
Come o que resta de fome, dorme que o dia acabou
E não há mais pressa em nublar esse céu da cabeça
Ou dor que consuma os remédios que restam
Sorve essa festa onde o amor te levou.
Uma espécie de peça se soltou daqui
E agora se encontra retida num frame
Que é parte da cena em um dia perdida
Imperceptível na sua existência
Contudo infinita na sua extensão.