Entre tintas imiscíveis e superfícies ásperas
Você descobriu seu propósito na falta de um
Corremos por dias que de longe se confundem entre si
Imaginando que a falta de tecnologia nos faria livres
Entre linhas de raciocínio cínicas e planos esquecidos
Os seus sonhos se encontravam numa gaveta cujo código esqueci
E que agora pertence a partição de que não tomamos parte
Na burocratização da papelada que parecia até arte
Quando arremessada do topo de um arranha-céu
Entre justificativas e meios de fins
Fingi não me afetar porque não me importava
Ou não me importar por uma questão de afeto
Imaginando que pudesse viver de sensação
Acabei atropelado pelos próprios excessos
Entre nuvens amareladas e tintas nas mãos
Eu era retratado nessa pintura quase como um traço
Procurava por algo insignificante,
mas talvez me sentisse vasto
Como a linha do horizonte desse chão.
Acordei com um escuro sem hora pra acabar
E no escuro tateei em vão as chaves
E no escuro desci as escadas e encontrei o carro
E no escuro andei em voltas pela cidade
E no escuro as luzes fundiam em meus olhos os muros
E tudo parecia nada e o cheiro parecia novidade
E no escuro seu emaranhado de curvas parecia claro
E a luz parecia ter a dose de escuro perfeita
Quando vinha translúcida debaixo do escuro da coberta.
Do outro lado da ponte era tudo como aqui estava
era como se no fim o sentido fosse o começo
E a partir de um certo ponto, era quase como uma estrada
E me encontrava partindo a cada vez que chegava
No final das contas o sentido não era a ida ou o regresso
Era só percorrer a viagem em si
Era tarde demais pra me dar conta?
Sai desse coma insone, deita a cabeça no peito
Come o que resta de fome, dorme que o dia acabou
E não há mais pressa em nublar esse céu da cabeça
Ou dor que consuma os remédios que restam
Sorve essa festa onde o amor te levou.
Uma espécie de peça se soltou daqui
E agora se encontra retida num frame
Que é parte da cena em um dia perdida
Imperceptível na sua existência
Contudo infinita na sua extensão.
Eu podia viajar, mas não tenho como sair
Ou senão pelo menos voltar pra casa, esse ônibus que não para de dar voltas
Tenho água impregnada em meu casaco,
Librina que me proibiram de tomar por precaução
E os passos nas poças do asfalto distorcendo minha visão
Da luz laranjada lá no alto
Quando tudo que ouço não é senão 'se desprenda de tudo'
E mantenha os pés firmes no chão
Com sorte essa febre talvez passe até o fim desse filme
Porque nela já enxergo um fundo de catarse, não existe febre
Que não seja no fundo uma fase
Que mascare o perfume impregnado nas mãos
Com sorte, talvez não seja preciso sorte.
A folha que eclipsa o sol
Invade o que pode parecer uma fixação
Das pedras que raspam a água em passos lerdos
Tempo em que as ideias nem sequer rompiam as pontes do cérebro
Embora drogado consumo essa dose de lucidez que explode
E enxarca minhas mãos a cada pulsar e tenta expulsar
Minh'alma de um paraíso distante ao qual apontava de longe
As milhares de estátuas de bronze, meu corpo jazia insone
E retirava a areia dos olhos o amor que nunca teve nome
Curava dos delírios infantis
Um passeio no meio da multidão até esquecer onde moro
Os efeitos do álcool e altura das horas repousar um sonho
Que defenestra os encantos e de tanto falar eu perdi o ponto
E perdi o caminho e o sono
E a vontade de saber a verdade e a medida das coisas
O desenho das nuvens e ventos e hoje as ideias rasgam o peito
Com nada mais que um sopro no ouvido e hoje as palavras se cruzam
Na minha vertigem sem queda, o diálogo sem sentido
A torrente que me faz durar.