segunda-feira, 10 de março de 2014

No Escuro

Acordei com um escuro sem hora pra acabar
E no escuro tateei em vão as chaves 
E no escuro desci as escadas e encontrei o carro
E no escuro andei em voltas pela cidade
E no escuro as luzes fundiam em meus olhos os muros
E tudo parecia nada e o cheiro parecia novidade
E no escuro seu emaranhado de curvas parecia claro
E a luz parecia ter a dose de escuro perfeita
Quando vinha translúcida debaixo do escuro da coberta.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Do outro lado

Do outro lado da ponte era tudo como aqui estava
era como se no fim o sentido fosse o começo
E a partir de um certo ponto, era quase como uma estrada
E me encontrava partindo a cada vez que chegava
No final das contas o sentido não era a ida ou o regresso
Era só percorrer a viagem em si
Era tarde demais pra me dar conta?

domingo, 7 de abril de 2013

Festa


Sai desse coma insone, deita a cabeça no peito
Come o que resta de fome, dorme que o dia acabou
E não há mais pressa em nublar esse céu da cabeça
Ou dor que consuma os remédios que restam
Sorve essa festa onde o amor te levou.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Frame

Uma espécie de peça se soltou daqui
E agora se encontra retida num frame
Que é parte da cena em um dia perdida
Imperceptível na sua existência
Contudo infinita na sua extensão.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Febre


Eu podia viajar, mas não tenho como sair 
Ou senão pelo menos voltar pra casa, esse ônibus que não para de dar voltas
Tenho água impregnada em meu casaco, 
Librina que me proibiram de tomar por precaução
E os passos nas poças do asfalto distorcendo minha visão
Da luz laranjada lá no alto
Quando tudo que ouço não é senão 'se desprenda de tudo'
E mantenha os pés firmes no chão
Com sorte essa febre talvez passe até o fim desse filme
Porque nela já enxergo um fundo de catarse, não existe febre
Que não seja no fundo uma fase
Que mascare o perfume impregnado nas mãos

Com sorte, talvez não seja preciso sorte.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Vertigem


A folha que eclipsa o sol
Invade o que pode parecer uma fixação
Das pedras que raspam a água em passos lerdos
Tempo em que as ideias nem sequer rompiam as pontes do cérebro
Embora drogado consumo essa dose de lucidez que explode
E enxarca minhas mãos a cada pulsar e tenta expulsar
Minh'alma de um paraíso distante ao qual apontava de longe
As milhares de estátuas de bronze, meu corpo jazia insone
E retirava a areia dos olhos o amor que nunca teve nome
Curava dos delírios infantis
Um passeio no meio da multidão até esquecer onde moro
Os efeitos do álcool e altura das horas repousar um sonho
Que defenestra os encantos e de tanto falar eu perdi o ponto
E perdi o caminho e o sono
E a vontade de saber a verdade e a medida das coisas
O desenho das nuvens e ventos e hoje as ideias rasgam o peito
Com nada mais que um sopro no ouvido e hoje as palavras se cruzam
Na minha vertigem sem queda, o diálogo sem sentido
A torrente que me faz durar.

domingo, 8 de julho de 2012

Domingo


I
A nossa estrela sumiu e não há mais onde ao qual revisitar
Lamentavelmente num suspiro idêntico ao primeiro
O mundo em que nos refugiávamos num dia
Não existe mais senão em memórias curtas
E desenhos confinados em molduras frias
Devaneios sem sequer perspectiva
O inverno inventado, e ainda me aqueço no frio dessa noite
Com nada mais que os sedimentos trazidos com os dias..


No meio do sono desperto sob camadas de tinta
Envolto num ontem que jamais amanheceu embora cansado
Viagem longa e o amor que obtive em troca
Pois hoje não é preciso mais do que sua natureza morta
Para a noite sumir sem que dela eu me despeça.


II
O nosso segredo repousa do lado de dentro
Da cápsula do tempo enterrada no quintal 
No silêncio mórbido do hotel num vazio qualquer de domingo
Nas cartas que você escrevia em meio a tanta falta
E o mapa que faz a estrada parecer finita
Hoje o quintal é de concreto
O hotel foi esquecido e seu zunido silente se perde no escuro
As cartas eu não recebi, pois não se sabia de onde vim
E a estrada que resta é somente a minha
Cada dia mais incerta e tortuosa em seus caminhos
E sigo sem saber o porque de tanto seguir.